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As minhas provas - 2012/2013
 


UTMB - Ultra-Trail du Mont-Blanc - 168 Km - Chamonix, França

30 de Agosto e 1 de Setembro de 2013 - 16h30

Desde que me iniciei nas provas de trilhos de montanha, actualmente conhecidas por “Trail Running”, que sempre ouvi falar do Ultra Trail du Mont Blanc®

Comparativamente às provas de estrada em que a Maratona é a prova-rainha, para mim esta seria a prova-rainha do Trail. No entanto a sua distância de 100 milhas (cerca de 168 kms) assustava-me. Aventurei-me assim em 2009 nas Ultra maratonas de três dígitos, começando por Ronda, Caminhos do Tejo, Mérida, Peregrinos, Tilenus… etc… de modo a ganhar experiência nas longas distâncias. A entrada para a prova dos Alpes implicava a obtenção de pontos para a sua inscrição o que necessitaria no mínimo de duas ultra-maratonas. Além dos pontos necessários (5 no inicio e actualmente de 7 pontos) haveria também de me sujeitar a um sorteio. Apesar de nunca ter tido muita sorte em qualquer sorteio, quer como individual quer como equipa, também neste caso a probabilidade foi idêntica. Valeu-me a entrada directa como inscrição prioritária para a prova de 2013. Como preparação fiz o Ultra-trail Sierras del Bandolero (150 kms) em condições extremas que foi um excelente teste quer psicologicamente quer para testar o equipamento, e também o UT de São Mamede. Apesar de previsto não fiz as 100 Milhas do “Oh, Meu Deus” por ser a primeira edição e já ter tido uma má experiência aquando da primeira de 100 km desta organização.

 Mas voltemos ao UTMB: uma prova de 168 kms com cerca de 10.000 mt de desnível positivo, com cerca de 2.600 atletas a efectuar no limite máximo de 46 horas, percorrendo o maciço montanhoso de três países – França, Itália e Suíça. Este ano o número de participantes portugueses seria de 42 para a prova principal (a maior comitiva até à data) e mais alguns para o CCC  (prova de 100 kms c/6.000 mt D+ com cerca de 1.900 participantes, 26h máximo).

A minha opção foi a de levar a família para umas pequenas férias, pelo que levei viatura própria, e acompanhou-nos também um amigo dos Açores – Otávio Melo – que iria participar no CCC. Deste modo partimos uns quatro dias antes, passaríamos um dia em casa de parentes em França e seguiríamos depois para Chamonix. Uma viagem de quase 5.000 kms ida e volta.

A cidade de Chamonix fica no maciço do Mont Blanc num vale onde tem à sua esquerda o pico Aiguille du Midi com 3842 mts e à direita outro cume com cerca de 2500 mts de altitude. A imagem branquinha dos glaciares no topo é duma beleza indescritível. Ficámos hospedados num Chalet de madeira, típico da região, conjuntamente com a família Serrazina, diversos atletas e acompanhantes num total de 27 pessoas.

Nesta cidade “respira-se” a montanha em todo o seu esplendor inclusive no comércio local. Vêem-se lojas com tudo o que é necessário para a prática de ski, montanhismo, escalada, caminhada e trail, material de todas e diversas marcas muitas delas desconhecidas. Inclusive até a montra duma farmácia apresenta manequins totalmente equipados. Na Feira do Trail parecemos uma criança numa loja de brinquedos… queremos comprar tudo. Haja dinheiro!!

Visitar os Alpes é uma experiência única e fantástica. Dedicámos o dia de quinta-feira de manhã para levantar os dorsais e depois visitar Les Houches, Saint Gervais e Vallorcine em França, Trient, Bovine, Martigny, Champex-Lac e La Fouly na Suiça. A sexta-feira de manhã foi fazer umas compras para recordação, visitar a Feira do Trail e as tendas dos Organizadores de provas de trail.

Vou equipado com a camisola do clube, uns corsários de compressão leve, meias de compressão, ténis Asics Gel Trabuco e uma Mochila Camelbak SkinPro 14+3 da Salomon com o seguinte material:

(obrigatório): Telemóvel, copo, dois frontais e pilhas, Manta sobrevivência, apito, banda elástica, impermeável Goretex c/capuz, Calças impermeáveis Goretex, Chapéu, gorro, luvas, mid-layer manga comprida (polar).

(aconselhado): Bastões, skin-layer (camisola térmica fina), manguitos, batom cieiro, fita adesiva, pensos p/bolhas, porta-dorsal, pirilampo, 2 bidons, 2 buffs, carregador Garmin, Máquina fotográfica, saquetas de sais, gels e magnésio. E claro... a nossa bandeira.

Peso aproximado da mochila (s/líquidos): 3,5 Kgs

No saco destinado a Courmayeur – Itália – aos 78 km, coloco uma camisola térmica, calções e meias de compressão, outros ténis Gel Trabuco, gorro, buff, pilhas, bateria telemóvel, pensos p/bolhas, vaselina, pirilampo, bebida isotónica, presunto fatiado, sais, gels e magnésio.

Após um almoço de massa, vamos entregar o saco e dirigir-nos para a área da partida. Com cerca de 2.635 atletas, gosto de me colocar entre o primeiro quarto.

A prova saiu da Place de L’Amitié (Praça da Amizade) às 16h30 hora local, ao som da música dos Vangelis atravessando as ruas de Chamonix.

https://www.youtube.com/watch?v=HYpcKKz2CCI&feature=player_embedded

Pouco depois entrámos num trilho de bosque com ligeiros sobe-e-desce paralelos à estrada para Les Houches. O ritmo vai rápido e resolvo abrandar um pouco. À saída de Les Houches começamos a subida para Le Délevret, cerca de 750 mt de desnível para cerca de 6km. A subida faz-se bem num grupo de centenas de atletas. A meio da subida os populares improvisam pequenos abastecimentos de água e bolos. Quase no topo da subida sou alcançado pelo Tiago e pelo Paulo Pires, o que é bom para quebrar a monotonia do som dos bastões. Aqui o público é o de uma manada de vacas pretas surpresa com tanto colorido na montanha.

Após passarmos o teleférico a descida para Saint-Gervais é brutal – 900 mt de desnível para 7 km – num piso macio de erva e folhas que devido á grande inclinação nos impele num ritmo demasiado rápido. A chegada a Saint-Gervais com cerca de 21km e de 3h15 de prova é espectacular. Somos recebidos com música, palmas e um abastecimento repleto de bebidas e comidas e sopa. Cumprimento a minha esposa, bebo um pouco de sopa e como uns frutos secos salgados e sigo para a saída. Chamo pelo Tiago e pelo Paulo que ainda estão no abastecimento. O Paulo anda às voltas com o dorsal e pede-me um alfinete, dou-lho e arranco de seguida. O percurso sobe um pouco serpenteando entre quintas e verifico que deixei para trás a minha companhia. Começa a anoitecer e antes dum pinhal num vale verdejante, noto que páram bastantes atletas para vestir os casacos e colocar o frontal. Resolvo então parar para vestir a camisola térmica e colocar o frontal embora não veja necessidade nem do casaco ou das luvas. O Tiago faz o mesmo e seguimos pinhal a dentro em direcção a Les Contamines. O Tiago queixa-se do ritmo rápido e começa a ficar para trás. Não consigo ver por onde anda o Paulo.

Começo a subir para Les Contamines com cerca 300 mt de desnível, e pelo som das palmas vejo que estou perto do abastecimento. À chegada vejo a minha esposa que me diz que só tem acesso à zona de assistência após a minha entrada na tenda do abastecimento. Como qualquer coisa quente e sigo para ter com ela. Enquanto como a sopa, diz-me que o Paulo entrou e saiu logo de seguida. Saio também até ao controlo de passagem onde resolvo vestir o casaco e colocar as luvas. Nesta altura chega a Célia e o Rudolfo. Cumprimentamo-nos e enquanto eles optam também por vestir os casacos eu sigo para a prova.

O percurso agora é rolante dentro dum bosque cerrado ao longo dum rio até Notre Dame de la Gorge. Passo uma ponte e entro num recinto de festa. Muitas palmas e muita gente bem vestida, pelo que depreendo ser um lugar dum evento qualquer ao ar livre. Ao sair deparo-me com uma subida pedregosa… e que subida. Iriamos ter de subir aos 2.350 mt de altitude num desnível de 1.200 mt positivo. Pelo meio iria haver um abastecimento aos 1.700 mts.

Faço a subida acompanhado de centenas de atletas tipo “Zombies”. Ninguém fala… só se ouve o som característico de centenas de bastões matraqueando as pedras do trilho. Para trás vê-se uma linha enorme de luzinhas em fila. De vez em quando algum popular vem descendo e incentiva-nos com um “Allez, allez… courage!”.

Ao ritmo lento da subida o frio começa-se a sentir, penso em parar para pôr algo mais quente mas apercebo-me pelo barulho característico dos chocalhos que não devo estar muito longe de La Balme, abastecimento aos 39 km onde chego com 7h20 de prova. Desde o último abastecimento conquistei 70 lugares na classificação. Aproveito para vestir o blusão. Como uma sopa, bebo um chá quente acompanhado de barras de cereais, calço as luvas e ponho-me de novo a caminho. O percurso agora torna-se mais técnico e difícil, pois temos de vencer +600 mt de desnível em cerca de 4 km. Os atletas parecem agora formigas em linha a um ritmo muito lento. Nos sítios em que posso vou tentando passá-los. Com frequência vejo muitos parados a descansar. Noto a pressão da altitude e começo a sentir náuseas. Paro já no topo do Col du Bonhomme aos 2330 mt de altitude, e sento-me bastante ofegante. O Rudolfo passa, reconhece-me e falamos um pouco. Digo-lhe para seguir pois normalmente recupero rapidamente. Tento movimentar-me o mais rápido possível para não arrefecer e forço o ritmo até ao Refuge de la Croix aos 2450 mt.

Sinto-me tonto e a tropeçar nos meus próprios pés. Paro e tento recuperar um pouco quando passa por mim a Célia Azenha que me diz que agora é sempre a descer até ao abastecimento. Ponho-me de cócoras agarrado aos bastões para conseguir um ritmo respiratório mais compassado quando dois socorristas da Cruz Vermelha me agarram e acompanham-me á tenda amarela junto ao refúgio. Pouco depois aparece uma médica que me mede a tensão arterial e que me diz que a corrida para mim terminou e que vai pedir transporte para Chamonix. “Mas esta tipa está doida ou quê? Então faço 2.500 km para vir ao Mont-Blanc e agora diz-me para não continuar?” Em bom calão francês misturado com algumas ca$%##@@!! à mistura digo-lhe que costumo ter a tensão baixa e que basta descansar um pouco para me por rapidamente em prova! Dá-me um comprimidinho branco (?!) põe-me uma manta térmica e diz que volta daí a pouco para verificar se estou ou não em condições para prosseguir.

Tapadinho e na tenda semi-aquecida passo um pouco pelas “brasas”. Sinceramente não sei quanto tempo se passou, se meia-hora ou uma hora. A médica volta, mede-me a tensão e “allez, allez…” lá vou eu. Passo pelo controlo de passagem e começo a fazer a descida a pique para Les  Chapieux, 900 mt desnível negativo em pouco mais de 5 km. Demoro cerca de 1h25 a fazer esta terrível descida, a meio ainda faço uma breve paragem para troca de frontal.

Chego ao abastecimento de Les Chapieux e sou confrontado logo com um controlo de material obrigatório, pelo que dou justiça a esta organização por controlar o que é exigido. Aleatoriamente pedem para mostrar a manta térmica e o segundo frontal. Informam-me também que posso retirar da mesa as pilhas para recarga. Hehehe… e à boa moda tuga pergunto se posso levar seis pilhas 3AAA para recarga dos dois frontais. Dizem-me que sim e eu escolho as pilhas entre os diversos tipos existentes.

Mal entro no abastecimento dizem-me que só lá posso estar mais 5 minutos pois tenho de passar no controlo à saída deste antes do controlo horário. Fico boquiaberto!!! Mas que raio… nunca me tinha preocupado antes com tempos de corte! Retiro a cábula da mochila com os tempos de passagem e fico alarmado. Mau… engulo a sopa duma vez só, agarro nalguma comida sólida que consigo e disparo para a saída…

Revejo a cábula e tenho cerca de 3h até ao Col da La Seigne, um dos pontos mais altos da prova. O percurso agora é a subir e em asfalto, pelo que permite um ritmo mais rápido. No final da estrada, perto dum refúgio, desviamos á direita para o trilho. A imagem à minha frente é impressionante… um ziguezague de luzes que vão subindo aquela escarpa implacável até se confundirem com a luz das estrelas.

Conforme subimos, existe sempre alguém em cada “zigue” ou cada “zague” que está parado a descansar. Graças aos bastões e á configuração do trilho consigo marcar um ritmo certo e vou passando bastantes atletas. Neste último troço recupero cerca de 60 posições. Um aspecto marcante é o de um atleta de cabelos brancos que sem o auxílio de bastões vai trotando sem parar com passadas curtíssimas. Chego ao topo do Col de La Seigne aos 2.516 mts de altitude – 60 km, caminhando sobre neve dura e através dum denso nevoeiro. O frio é cortante! Passo no controlo com cerca de 2 a 3 minutos antes do tempo limite previsto. A descida agora é num piso rochoso e técnico, nalguns sítios é mais seguro correr na linha de água causada pelo degelo.   

Amanhece quando chego ao Lac Combal – 64km. Apesar de ter descido cerca de 550 mts de desnível desde o ultimo Col, a verdade é que estou ainda a cerca de 2000 mts de altitude, num vale árido rodeado de imponentes montanhas cobertas de neve. O abastecimento está colocado no meio do vale em duas grandes tendas. Revejo a minha cábula e verifico que cheguei com cerca de 6’ antes da barreira horária, o que me permite comer e beber algo quente. Está bastante frio o que me obriga a correr para manter o corpo quente. À minha frente tenho uma subida de 4 kms para vencer 500 mts de desnível até ao Mont-Favre.

A subida é feita serpenteando uma linha de água que atravessamos por diversas vezes. O sol já aquece a encosta e aproveito para guardar o casaco e as luvas, mantendo no entanto o polar vestido. Passa por mim um casal de atletas japoneses, aproveito e peço-lhes para me tirarem uma foto com a minha máquina.

A subida é bastante íngreme e de cada vez que penso que estou a atingir o topo, aparece de novo outra subida. Cruzo-me com uma manada de vacas malhadas nos diversos tons de castanho ou preto (não havia nenhuma de cor roxa da Milka, J). Enquanto que o atleta da frente foge do trilho para evitar as vacas, eu aventuro-me a atravessar pelo meio delas. Afinal elas estão mais curiosas que eu e bastante mansas. Subitamente ouço um barulho ensurdecedor e surgindo por detrás do topo aparece um helicóptero da Organização. Um homem acena-me e pergunta com o polegar para cima se está tudo bem. Faço o mesmo gesto e rapidamente desaparece.

No topo do Mont-Favre há de novo um controle de passagem. Verifico pela cábula que estou fora do limite de tempo. Dão-me uma bola de arroz salgado embrulhado em papel alumínio que como de seguida.

O trilho agora desce até um vale num piso de pedras e tufos de erva, ou em rasgos na terra cortados pela água. São cerca de 5 km para um desnível negativo de 500 mt. Passa por mim uma atleta checa em ritmo rápido. Mais á frente alcanço três atletas (um alemão, francês e espanhol). Discutimos um pouco os reduzidos limites de tempo e concluímos que vai ser à justa a chegada a Courmayeur. Forço o ritmo de descida e o alemão fica para trás. O francês diz-me que no ano passado tinha feito o PTL – 300 km. Ligo à minha esposa que me espera em Courmayeur e digo-lhe para levantar o meu saco e me esperar à saída do abastecimento para mudar de roupa. Deste modo faço o controlo de passagem à saída sem ser barrado.

Chegamos ao abastecimento de Col Checrouit – 1956 mts altitude. Bebo apenas um copo de isotónico e sigo de imediato. Os meus companheiros ficam no abastecimento.

O próximo controle de passagem é em Courmayeur, a cerca de 5 km mas para um desnível negativo de 750 mt. A descida que inicialmente é feita em trilho relvado, passa abruptamente para poeirento, com muitas raízes, em ziguezague, com degraus elevados e de inclinação bastante acentuada. É brutal… por diversas vezes sou impelido a agarrar-me a ramos ou a sentar-me para reduzir o ritmo e evitar alguma queda desagradável. Passo dois atletas que me aplaudem e encorajam. Ouço os sinos da igreja e vejo que já não vou conseguir chegar ás 11 ao abastecimento.

Finalmente saio do trilho que me leva a uma estrada para dentro da vila. À minha espera estão os meus filhos que me incentivam e seguem comigo. Chego à entrada do pavilhão e o membro da organização barra-me e pede-me o dorsal para cortar o chip. Diz que lamenta mas é o regulamento! Sou barrado aos 77,7 km com 18h37’ de prova… 7 minutos de atraso no tempo limite de corte. Levam-me ao secretariado para receber a senha para reaver os 20 € da caução do chip e marcam-me o tempo final a que cheguei ali… 18h51.

E assim termina com muita pena minha a prova rainha do trail – o UTMB.

Retiro daqui bastantes experiências nesta prova. A partida espectacular, o percurso, as lindíssimas paisagens e uma excelente organização numa prova tão mítica como é o Tour du Mont-Blanc. A regressar numa próxima vez…

  

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UTSM - Ultra-Trail de São Mamede - 100 Km - Portalegre

18 de Maio de 2013 - 00h00

Pela segunda vez desloquei-me a Portalegre para fazer esta prova, excelentemente bem organizada pelo Atlético Clube de Portalegre. Uma prova na distância de 100 km com um desnível positivo de 3.250 mts. No ano passado tinha-a feito em 16h50 numa distância final de 105 km e um D+ 3.300 mt, e esperava este ano conseguir um melhor resultado.

Nesta edição a partida seria à meia-noite e não às 4h da manhã como em 2012, o que embora não permitisse um descanso antes da partida iríamos efetuar a primeira metade (a mais difícil) durante a noite. A novidade este ano é que já não andaríamos às voltas no final em Portalegre, e que haveria uma cobertura ao vivo “online” com fotos, vídeos e informação dos tempos de passagem nos dez PACs (Postos de Abastecimento e Controlo). Após o controlo do material obrigatório, entrámos para a pista do Estádio dos Assentos donde partimos.

Os primeiros kms são feitos em pelotão que se vai “esticando” definindo o ritmo de cada um dos grupos. Na primeira linha d’água rio-me perante a hesitação dalguns atletas em molhar pela primeira vez os ténis. A noite está fresca e os trilhos fáceis convidam a um ritmo mais forte, mas a distância é longa e há que refrear um pouco este ímpeto inicial.

Chegamos ao rio em Reguengos pelos 6 km, e relembro o que me aconteceu no ano passado em que caí neste sítio embatendo com a cabeça numa pedra provocando diversas mazelas. Desta vez fi-lo com todos os cuidados de modo a evitar as pedras escorregadias. Fiquei satisfeito por ver uma equipa de socorro no final deste troço, ao contrário do ano passado. Daqui até ao primeiro PAC foi bastante rápido. Continuo até ao próximo que fica no Coreto em Alegrete pelos 17 km, em que como qualquer coisa.

A partir daqui começa a ascensão até ao ponto mais alto da prova no PAC3 – Antenas. Noto que o percurso é diferente do do ano passado. Desta vez subimos em ziguezague durante bastante tempo. Colo-me a um grupo que segue à minha frente e vou-me distraindo com a música do rádio do atleta da frente. A certa altura descemos um trilho acentuado para logo de subida “treparmos” num corta-fogo de inclinação apreciável. Aqui o frio começa a notar-se e surge de imediato um nevoeiro. Páro para vestir o impermeável e coloco as luvas na bolsa lateral do camelback para retirar mais facilmente caso necessário. Perco o grupo em que seguia e continuo sozinho até às Antenas. A brisa gelada e o nevoeiro fazem-se sentir e chego ao topo em condições climatéricas adversas. Vou com 4h15 de prova.

Deparo com muitos atletas neste abastecimento o que me surpreende devido ao frio que está. Bebo um chá quente, calço as luvas, e aguardo que alguém saia do abastecimento para ir com companhia, mas ninguém se atreve a sair. Alguém grita para os desistentes o acompanhar, e verifico que ainda são bastantes.

Nestas condições os topos das montanhas não são sítios para se estar muito tempo ou arriscamo-nos a entrar rapidamente em hipotermia. Tenho de sair rapidamente e ponho-me de imediato ao percurso.

A descida é sinuosa, acentuada e obriga a uma atenção redobrada face ao nevoeiro mas está bem marcada com os quadrados reflectores. A luz do meu Led Lenser continua forte e fico agradavelmente surpreendido pois até agora usava pilhas recarregáveis que davam uma autonomia de cerca de três horas, e desta vez estava a usar pilhas normais de alta capacidade.

Á medida que vou descendo a temperatura vai aumentando e tenho de retirar as luvas. Ao longe já se avistam as luzes da barragem da Apartadura. O percurso em estradão em ligeiros sobe-e-desce permite um ritmo agradável à medida que o dia vai amanhecendo.

Chego à barragem no PAC4 com quase seis horas de prova e simultaneamente as pilhas do frontal a enfraquecerem. Duraram bastante!! Recordo-me que no ano passado comi aqui umas febras e bebi uma cerveja. Desta vez fiquei satisfeito com uma bebida quente e uns bocados de chouriço assado. Ligo á minha esposa a informar-lhe onde estou e surpreso ela diz-me que já sabia que eu estava nos 40 km pela Net. Fantástico!

Começam a chegar atletas quando saio do abastecimento e sigo de novo sozinho. O dia está clareando e a subida até ao próximo abastecimento é feita sob os fantásticos odores da natureza e ao som do chilrear dos pássaros. Os coelhitos atrevem-se a vir ao trilho para me observar fugindo depois em seguida.

Chego ao PAC5 em Porto de Espada – 49 km - com cerca de 7h20. Já lá estão três atletas a tomar o pequeno-almoço. Sim… porque fiz exactamente o mesmo. Uma bela duma bifana quentinha com um copo de tinto a acompanhar. Soube mesmo bem! Aproveito para falar com a esposa e lá sigo pinhal adentro desta vez já em companhia. Sigo com dois rapazes que estão a fazer esta prova pela primeira vez e que um deles vai desistir em Marvão, pois previa apenas fazer 60 km, a maior distância até á data.

Após uma subida, há sempre uma descida. Desta feita descemos até á estrada e depois até ao rio para o atravessarmos. Após molharmos os pés no rio, subimos á estrada e começamos de novo uma subida que irá rodear pela direita a montanha até ao Castelo de Marvão.

A subida até ao castelo é bastante íngreme iniciando num empedrado para depois descermos e tornar a subir por um trilho extremamente duro até à porta da muralha. Já o conhecia do ano passado e sabia a sua grande dificuldade.

Neste PAC6 – Marvão – aos 60 km, chego com 9h45 de prova. Apesar de ter um saco com uma muda total de equipamento e ténis, apenas mudo para uma camisola mais fresca pois prevejo chegar à meta ainda de dia. Deixo também os frontais. Aproveito para comer uma sopa e beber uma cervejinha fresquinha com o Paulo Pires.

Despeço-me da minha esposa que me esteve a apoiar neste ponto intermédio, e desço em ziguezague pela via romana empedrada. Comigo segue em jovem atleta de nome José Luís, com o qual vou travando conhecimento. Ao fim duns 5 km entrámos numa estrada asfaltada que nos deveria levar até ao PAC7 em Carreiras, mas este ano o percurso era diferente! Para “facilitar”… o percurso agora é duma subida prolongada até ao marco geodésico, para depois desceremos por um pinhal até ao Abastecimento nos 70 km em que cheguei com 12h de prova. Daqui até ao Santuário da Penha em Castelo de Vide (77 km) é a parte que menos me agrada… uma estrada romana empedrada com quase 5 km que me martiriza os pés. Já a tinha amaldiçoado no ano passado!

A meio desta via cruzamo-nos com outro jovem atleta (Zé Carlos) que vem em sacrifício e que pensa desistir. Tal como o Zé Luís era a primeira vez que fazia uma ultra-maratona! Apoiámo-lo e acompanhou-nos até ao final da via romana onde o largámos já com alguns incentivos e conselhos de modo a que completasse a prova.

Chegados ao PAC8 com cerca de 13h25, subimos ao santuário para depois descermos pela corda até ao abastecimento. A minha esposa espera-nos, tira-se umas fotos, e partimos de seguida.

O percurso agora é rolante e mantemos um ritmo constante. cerca dos 84 km saímos do estradão e após um começo com bastante lama iniciamos a subida que nos irá levar ao Convento de Provença. Chegámos ao PAC9 aos 90 km com cerca de 15h30 a 10 km do final da prova.

O abastecimento era variado e bebi coca-cola e comi duas fatias de piza. Quando recomeçámos a prova, senti-me com náuseas e vomitei o que tinha acabado de comer. Tentei comer uma barra de cereais e aconteceu-me o mesmo! O estômago rejeitava toda e qualquer comida.

Fiquei pálido segundo o José Brito da CLAC e decidi deitar-me um pouco. Disse ao Zé Luís para seguir mas ele optou por esperar por mim ao bom espírito dum atleta de trail, o que agradeci.  Chegou a Cristina Guerreiro que ficou preocupada comigo também.

O tempo que permaneci deitado deu para recuperar um pouco. Resolvi seguir e esperar que fosse apenas uma tontura passageira, mas conforme começava a correr vinham-me os vómitos à boca, pelo que resolvi caminhar rápido e um trote sempre que possível. Subimos uma cancela, atravessámos um prado e um rio e logo de seguida apareceu-nos escrito no chão "última subida".

Para uma ultima subida esta foi bem íngreme, pois ainda tínhamos de subir á N. Sra. da Penha. Chegámos ao PAC9 - 95 km quase uma hora depois.

Fomos recebidos pelo Zé Brito que estava preocupado comigo mas assegurei-lhe que estava mais ou menos bem. No abastecimento alguém da organização disse que estava sem cor e que o ideal era uma boa bifana e uma cerveja. E não é que foi remédio santo !!! Como se qualquer atleta de Trail declinasse uma oferta daquelas. Até deu para descer a trote a grande escadaria da Sra. da Penha. Já na estrada para o estádio somos alcançados por um atleta e foi com surpresa que reconhecemos o Zé Carlos que pensava desistir aos 70 km.

E foi neste grupo que chegámos ao Estádio terminando a nossa prova com 17h50 ficando em 148º da geral e 11º do escalão.

Uma prova muito boa, com um percurso bom e variado e duma excelente organização. Pena que os tempos finais não aparecerem online pois até à altura muitos dos amigos e familiares acompanhavam a prova deste modo.

Uma prova que recomendo!

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2º Ultra-Trail Sierras del Bandolero - 132 Km - Prado del Rey, Espanha

8 e 9 de Março de 2013 - 18h00

Desde o ano passado quando fiz a 1ª Edição deste Ultra-trail que esta prova me ficou “atravessada”. Na altura tive de desistir aos 110 km com 24 horas de prova devido a bastantes dores nos pés.

Tinha subestimado a dureza da prova, a falta de treino específico para este tipo de piso e desnível, além duma fraca escolha de equipamento. Desta vez já me tinha precavido para todas estas condicionantes, mas não contava com uma que me surpreendeu: as más condições climatéricas.

Mas vamos lá mais uma vez, começar por onde se deve… pelo inicio.

Tal como no ano passado, fui eu e a Paula com o Paulo Costa, o Alexandre Cunha e desta vez com o Carlos Couto e a esposa, a Teresa Afonso. À última da hora decidimos ir na noite anterior de modo a permitir descansarmos antes da prova, pois no ano passado pouco tempo tivemos de descanso após seis horas de viagem no próprio dia.

Saímos pelas 19h30 e chegámos a Prado del Rey pelas 2 da manhã. Sem alojamento previsto, montámos literalmente as tendas à “moda cigana” no estacionamento defronte das piscinas municipais e foi num ápice em que adormecemos. Acordámos já pelas 11h00 locais, arrumámos tudo e lá fomos visitar a vila, levantar os dorsais e ir para o pavilhão que só abriria às 15h00.

Soubemos então que devido ao meu tempo dos dias anteriores, o percurso tinha sofrido alterações: a distância foi reduzida para 130 km, e sido retirada a parte mais rápida e plana entre Montejaque / Ronda / Benaojan / Jimera de Libar e Cortes de La Frontera. Quanto a mim a parte mais bonita do percurso e feita durante o dia, junto ao Rio Guadiaro paralelamente à linha do comboio. Segundo a Organização o rio transbordou inundando inclusive a linha férrea bloqueando a passagem dos comboios. Apesar da redução da distância o percurso aumentou de tecnicidade e de desnível passando dos 5.500 para quase 6.000 D+. A agravar, previa-se chuva forte durante a noite, ventos fortes, redução de temperatura além de que o piso estaria lamacento. Aconselharam-nos de extrema prudência na descida de extrema inclinação para Villaluenga Del Rosário aos 32 km.

Já no pavilhão, encontrámo-nos com a Célia Azenha, o Tiago Martins e o Paulo Jorge formando assim a comitiva Lusa. Aproveitando os colchões existentes preparámos a cama para dormida depois da prova. Almoçámos, preparámos o equipamento e deitámo-nos para descansar até à hora da prova.

Como equipamento, levei: Bastões em carbono, Mochila da Berg Outdoor, 2 frontais, pilhas, manguitos, luvas e impermeável da Raidlight em Goretex, um par de meias, boné, dois bidons (um com isotónico e outro com água, pois no Camelpack levava pouco menos de meio litro), carregador para o Garmin, manta de sobrevivência, ligadura elástica, pensos, creme gordo, barras, géis e amendoins torrados. Vestido: Uma camiseta de compressão por baixo e uma térmica e reflectora da Kalenji por cima, corsários (conforme exigido no regulamento), meias de compressão, gorro e uns Gel trabuco 12 já bastante rodados. À cintura: uma pequena bolsa com telemóvel, BI e algum dinheiro, géis e o suporte para o dorsal.

Para os sacos nos pontos intermédios: Para os 50 km em Montejaque, umas calças de Lycra, camiseta, buff e meias de compressão, vaselina e pensos para bolhas. Para os 87 em Villaluenga Del Rosário, calções de Lycra, camiseta e meias de compressão, buff, vaselina, pensos para bolhas e os Gel Trabuco 13.

Pelas 17 horas lá fomos todos para a praça da partida onde entregámos os sacos para os pontos intermédios e verificar o material obrigatório. Aqui o Carlos Couto é admoestado pelo Juiz Arbitro da Federação Andalusa de Montanha com uma penalidade duma hora por não trazer corsários. Encontrámos o Pedro Marques juntando mais um atleta à comitiva Lusa.

Dá-se a partida pelas 18h00 locais ao tiro de mosquete. O tempo está enevoado, a temperatura arrefeceu e o céu ameaça chuva. Ao fim dum par de quilómetros entramos nos trilhos que nos vão levar a El Bosque e ao primeiro abastecimento (7,2 km) que alcanço juntamente com a Teresa Afonso com 46’. Somos saudados pela população pois a Teresa é a primeira mulher da prova. À saída da povoação começamos a subir com bastante inclinação. A meio da subida somos ultrapassados por três espanholas que conseguem trotar em vez de caminhar. Esta subida irá levar-nos até ao 2º abastecimento em Llanos del Campo aos 14 km. Antes de lá chegarmos começa a chover e paramos para vestir os impermeáveis. O trilho continua a subir até aos 1.000 mt de altitude até Puerto del Boyar agora um piso pedregoso, lamacento sempre junto à estrada. Não dá para correr nem para passar ninguém. A certa altura paramos em fila pois temos de subir uma escada em ferro para passar o arame farpado duma cerca. Aqui alguns atletas ultrapassam-nos para ficar à frente da fila o que causa uma troca de palavras pela falta de respeito em não saber esperar. Chegamos já ao 4º abastecimento (20 km) debaixo duma chuva gelada intensa e com 4h30 de prova. Os abastecimentos são bons, compostos por água, aquarius, sumo, coca-cola, laranjas, bananas, chocolate, salgadinhos e bolachas. O frio faz-se sentir e aproveito para calçar as luvas e por o boné por debaixo do capuz do impermeável. Chove torrencialmente e o piso é cada vez de mais difícil progressão e estamos a subir para o ponto mais alto da prova - Meseta del Simancon nos 1.500 mts de altitude. Abate-se um denso nevoeiro que nos impossibilita de ver os sinais reflectores com a luz do frontal. O que vale são umas luzes vermelhas cintilantes colocadas estrategicamente pela organização. Cada vez arrefece mais, calculo que esteja entre os 0 e os 2º C e a nossa respiração traduz-se numa pequena nuvem de fumo.

Começamos a descer para Cruce de Caminos por um trilho que mais parece uma linha d’água tal a quantidade que inunda o mesmo. Opto por seguir dentro dele pois tem mais aderência que as bermas lamacentas. A Teresa pede-me para pararmos pois tem as mãos geladas e quer calçar as luvas de lã. Enquanto que nas subidas a Teresa se afasta, nas descidas sou eu que passo e espero depois por ela.

Já no pequeno vale, um atleta espanhol pergunta-me a tiritar se tenho uma camiseta que possa dispensar. Ele tem vestido duas e um corta-vento e nitidamente está em princípio de hipotermia. Pergunto-lhe se tem a manta de sobrevivência com ele e digo-lhe para se despir e enrolar a manta por cima do corpo e tornar a vestir a roupa molhada. Olha-me incrédulo e pergunta-me: “Me desnudo ahora?” Digo-lhe que sim mas ele prefere levantar a roupa até ao pescoço e ajudo-o a colocar a manta, e lá segue ele em bom passo de corrida. Questiono-me a mim mesmo quantos atletas sabem para que serve a manta de sobrevivência!!

A Teresa alcança-me e lá continuamos desta vez para a terrível descida para Villaluenga del Rosário. Com quase três km de descida em zigue-zague por um trilho de pedra solta, bastante enlameado, com uma inclinação de quase 35 % e extremamente perigosa. Já a conhecia do ano passado, mas o mau tempo torna-a quase impraticável. Com muita calma a faço utilizando os bastões como batente para os sapatos para evitar resvalar. Um queda e seria de certeza “a morte do artista”. Desta vez não fizemos a descida toda como no ano anterior, utilizando uma diagonal que nos iria levar um pouco mais acima do que no passado, descendo depois pelas ruas empedradas até ao abastecimento, 32 km e quase com 7h00 de prova. Lá dentro vejo muitos atletas a mudar de roupa e calculo que não sejam atletas já no regresso, pois este local é onde deixei o saco dos 87 km, mas alguém da organização diz que 1 em cada 3 está a desistir da prova. Um deles agradece-me pela ajuda (é o que ajudei a pôr a manta) e diz-me que também vai desistir. Como qualquer coisa, bebo um café (é intragável, mas pelo menos é quente) e tento ligar à minha esposa mas estou constantemente a perder o sinal de rede.

Estou gelado mas o impermeável da Raidlight faz jus ao valor que custou, pois estou seco por debaixo dele. Só ao fim de algum tempo é que aparece a Teresa que conta que ia caindo e a sorte foi um atleta a ter segurado pela mochila. Mal come qualquer coisa e já quer arrancar… e lá vamos nós.

Saímos da povoação por uma estrada de cimento que desce até ao vale. Pelo caminho cruza-se à nossa frente alguns porcos pretos que até nos assustam. O vale que no ano passado era verdejante e permitia correr, agora é um autêntico pântano lamacento em que temos de rodear imensos “pequenos lagos” para continuar no trilho marcado. À nossa frente aparece uma serra em que teremos de transpor 300 mts de desnível num piso pedregoso sem trilho marcado sinalizado apenas pelos reflectores até Puerto del Correo. Daqui desceremos até ao Refugio Llanos de Libar onde se encontra o 5º Abastecimento aos 41 km. A chuva continua sem parar fustigada por um vento forte gelado!

Até este abastecimento passámos por uma parte em que nos enterrávamos na lama até meio da perna para progredirmos. O abastecimento era numa casa em que saímos do percurso íamos lá para o controle, comíamos e voltávamos de novo ao percurso. Quando chegámos disse à Teresa que demoraria mais um pouco e que ela poderia seguir se quisesse pois seria estradão até Montejaque aos 50 km. Eu decidi tirar a manta e enrolá-la ao corpo para evitar os tremores de frio. Comi uma sandes e voltei ao trilho.

A chuva já não era tão forte mas o vento frio era cortante. Sentia-me quente com a manta e segui trotando. O percurso alternativo ao do ano passado era seguir até Montejaque, voltar para trás até Llanos de Libar, seguir para Cortes de la Frontera e de novo regressar pelo mesmo percurso seguindo depois para Villaluenga. De vez em quando cruzava-me com alguém de frontal que já vinha no regresso e cumprimentávamo-nos através dum “Hola” e eu com um “Força”. Um deles responde-me com um “Viva, Carlos!”. Era o Paulo Costa que me diz que o Alexandre Cunha tinha desistido em Montejaque com hipotermia. A descida para o abastecimento é longa… quase uns cinco quilómetros, o que significa mais cinco para subir. Já não me cruzo com a Teresa. Como entro na vila por um lado vejo as luzes dos atletas de regresso vindo de outro lado da vila. Entro no abastecimento e sou festejado pela população. Vou com 11h35 de prova aos 50 km.

Peço o meu saco e entro numa sala quente devido aos aquecedores e mudo de roupa. Meias, camisola térmica e buff. Chega alguém da organização e diz que está lá fora o transporte para a meta e pergunta quem se retira. Rapidamente cerca de 10 dos 12 atletas que lá estávamos levantam a mão. Questiono-me porque existem tantas desistências!! Como um caldo quente mas não consigo comer a massa que tem um sabor azedo e a saber a pimentos. Prefiro comer um gel à base de cafeína. Tento mais uma vez ligar à minha esposa, mas continua a dar erro de ligação. Acabo por seguir de novo sozinho. Já está a amanhecer e desligo o frontal.

A subida é longa e o piso está alagado com água que verte das montanhas. Vou-me cruzando com vários atletas que cumprimento. Um deles é o “Super Paco” que causa a minha admiração, não só pela idade mas com a jovialidade e determinação com que corre. Chego de novo ao Refugio Llanos de Libar e desvio para Cortes de La Frontera. O vale está impraticável, parece coberto de pequenos rios com profundidade pelo joelho onde se vêem algumas ilhas. Ao fim dalgum tempo é inevitável que tenha de meter nestes rios para prosseguir. O problema é que mesmo dentro deles me afundo em lama e é graças aos bastões que vou conseguindo seguir. Finalmente atinjo o fim do vale começa a subida para Sierra Blanquilla. Já não chove, mas continua frio.

A subida é lamacenta, escorregadia e perigosa. Cruzo-me de novo com o Paulo Costa que já vem de regresso de Cortes. Diz para ter muito cuidado que tudo está escorregadio e que já deu algumas quedas embora sem problemas. Conta-me também que ao atravessar o vale pantanoso saltou para uma ilha que lhe parecia erva á luz do frontal e afinal enterrou-se até à cintura numa poça cheia de limos verdes. Quase que entrou em pânico, mas lá conseguiu sair. Chego ao topo da serra e finalmente consigo ter rede e ligo à minha mulher. Conta-me que o Pedro Marques ia em 2º lugar mas que o grupo cimeiro se perde e voltou a Villaluenga sem terem ido a Cortes. Iam por dar a classificação como terminada pelas posições de chegada, quando souberam que o 2º grupo (entre eles o Carlos Couto que ia em 3º) seguiu o percurso correcto pelo que iriam levar o primeiro grupo para a meta. Ligo o carregador do Garmin e sigo para Cortes. Começo por me cruzar com vários atletas entre eles o Tiago Martins, o Paulo Jorge e a Teresa que me diz que é a 2ª mulher da prova. Já quase na descida encontro a Célia Azenha que já diz mal da vida mas que vai ver até onde vai conseguir chegar.

Chego a Cortes de la Frontera – 75 km com 16h50’ de prova. Mal consigo comer pois a comida cai-me mal no estômago. Como uns salgados e bebo um pouco do intragável café espanhol que mesmo com açúcar continua a não ser gosto a que estamos habituados e sigo para vencer de novo a Sierra Blanquilla com quase 700 mt de desnível em cerca de cinco quilómetros. É já no topo que vejo pela primeira vez um jipe da Cruz Vermelha no percurso. Até agora só via apoio médico apenas nos abastecimentos.

O caminho de regresso está péssimo, pois já foi alvo da passagem dos atletas numa ida e volta, apresentando-se lamacento, escorregadio e numas falésias de bastante respeito. Alcanço um par de atletas espanhóis e sigo com eles. Subo de novo ao Puerto del Correo e já se avista Villaluenga. Atravesso de novo o vale pantanoso e começo a subida em piso de cimento até á Vila onde sou recebido pela minha esposa e pelo Alexandre Cunha. Foi aqui onde desisti o ano passado, mas este ano tinha umas contas a ajustar. Encontrava-me bem física e psicologicamente. Tinha 87 km de prova percorridos em 21h15. Eram pouco mais das 3 da tarde portuguesas, e faltava “apenas” uma maratona.

Mudei de camiseta térmica, coloquei um pouco de vaselina entre os dedos dos pés encardidos de tanta água, calcei umas meias e uns ténis secos. Que bem que soube! E lá segui para defrontar outro dos pontos mais difíceis da prova – a serra da Grazalema com cerca de 1400 mts de altitude.

Mal iniciei a subida e começa de novo a chover que se foi agravando cada vez mais. A meio da serra já quase era tempestade! Já era difícil vencer o desnível quanto mais toda a água que corria serra abaixo. Lembrei-me que tinha um poncho azul de plástico na mochila que me tinham dado na Maratona de Lisboa e resolvi colocá-lo por cima do corpo e da mochila que já pesava por empapada que estava. Por outro lado a pala do boné por baixo do capuz do impermeável é óptima para evitar que a chuva escorra pela face mas torna-se difícil para ver o percurso que é sempre a trepar, pois estamos constantemente a levantá-la. Para dificultar ainda mais o nevoeiro torna-se mais denso e a temperatura arrefece rapidamente. O que vale são os “pirilampos” vermelhos a piscar que me orientam no caminho. Começo a sentir as mãos geladas, pois as luvas são em goretex apenas nas costas da mão mas microperfuradas na palma para serem respiráveis. O frio era insuportável. O gorro estava enfiado até às orelhas, tinha um boné, o capuz do impermeável e o buff tapava-me a garganta e o nariz, só se entrevendo os olhos. Já corria no topo da serra para gerar calor corporal e com as mãos dentro dos bolsos para aquecer. A certa altura lembrei-me que ainda tinha na mochila umas luvas de plástico que se usam nas estações de serviço para por combustível, e que já tinha usado também no UTAX. Calcei-as e coloquei as de goretex por cima e foi o que me valeu. Rapidamente consegui tornar a usar os bastões que ajudam bastante.

Foram cerca de 12 km na serra que duraram 4h30. A descida para a vila de Grazalema foi feita em asfalto até ao abastecimento. Esta descida é deveras controversa. Desce-se cerca de 2 km até ao abastecimento, faz-se o controlo de passagem, petisca-se algo, e torna-se a subir os mesmos 2 km a pique para continuar o percurso.

Este troço de cerca de 12 km inicia-se num estradão de brita com fitas muito espaçadas numa subida de declive acentuado com cerca de 6 km. De vez em quando vê-se a Autopista à direita. Quando chego ao topo, apresenta-se um nevoeiro cerrado que me impede de ver as marcações. Tenho três possíveis saídas e aventuro-me em frente. Ao fim de meio quilómetro volto para trás. As marcações não estavam assim tão espaçadas. Tento ligar à minha esposa para junto do Alexandre me dar algumas dicas, mas de repente vejo um frontal que aparece na subida. É dum atleta espanhol que fica “à nora” como eu. Resolvemos cada um seguir as duas alternativas possíveis (pois já tinha eliminado a terceira) e dar um grito a quem encontrar a correta. Ao fim duns minutos, já o espanhol me chamava.

O percurso estava marcado com pequenas setas reflectoras mas que não eram visíveis do topo da subida. Atravessamos a estrada de asfalto e começamos a descer tendo uma cerca de arame á esquerda que ladeia o rio. O percurso é bastante lamacento, inclinado e em descida o que nos faz redobrar as cautelas. O Espanhol parece que quer recuperar tempo perdido, e imprime um ritmo demasiado rápido com as inevitáveis quedas. Não quero perder esta “lebre” de serviço e arrisco numa corrida ao mesmo ritmo. A descida tortuosa vai-nos levar até Benamahoma onde estará o próximo abastecimento. Demoro quase 3h30 nestes 12 km. A chegada ao abastecimento é feita sob incentivos do pessoal da organização. A chuva parou.

Mais uma vez tento comer algo quente, mas o estômago recusa. A massa tem um paladar desagradável e o café tem aquele travo habitual com sabor a queimado. Prefiro “atacar” a fruta. Preparo-me para sair e pergunto ao espanhol se me acompanha. Ele pergunta à Organização o caminho e saímos juntos.

Este penúltimo troço até El Bosque apesar de curto (7 km) é muito sinuoso e fácil de nos perdermos. Por diversas vezes ou não vimos fitas, ou víamos fitas para ambas as direcções. É feito nas margens do rio, e ora passamos uma ponte para lá ou de novo pra cá, com escadas em degraus bastante sobrelevados sendo a progressão muito exigente. A certa altura já o meu silencioso parceiro se começa a “arrastar” e passo eu para a frente. Rapidamente alcançamos um grupo de seis atletas e em conjunto chegamos ao abastecimento em El Bosque.

Encontro a minha esposa e o Alexandre Cunha junto do abastecimento e digo-lhes que mal vou parar. O meu objectivo é terminar o quanto antes melhor. Já vou com 31 horas de prova e até á meta faltam cerca de 11 km. Pergunto ao meu companheiro de percurso se quer seguir, mas ele apenas me deseja boa prova e um bom regresso a casa. O Alexandre predispõe-se a acompanhar-me neste último troço.

Saímos da vila por um trilho junto ao rio, até que desviamos para Llano Mesines. Vamos conversando sobre as peripécias da prova e assim vamos indo num bom ritmo a subir. Uma subida em estradão de cerca de seis quilómetros até uma cancela. A partir daqui o trilho passa a autêntico barro, em que a lama acumula um peso extra á fadiga normal após 100 km de prova. Finalmente chegamos a uma estrada de asfalto. Cerca dum km nela e encontramos a Guardia Civil que nos indica o caminho para a meta. Começa a chover de novo. A subida para a rotunda da cidade é desgastante, de extrema inclinação até tem cortes em diagonal para aderência dos pneus dos carros. O Alexandre ajuda-me levando a mochila. As pilhas do frontal já estão nas últimas. A subida desde a rotunda até á meta com cerca de quilómetro e meio debaixo duma chuvada torrencial até parece pouco face a todas as peripécias passadas. A chegada à meta com a nossa bandeira é para mim um grande triunfo. 81º lugar da geral – 29º do escalão com 33h33’57” (era giro ter sido tudo com o numero 3!!). Nada mau em 304 atletas na prova.

Logo de imediato na tenda de meta dão-me o diploma e duas senhas para o Bar (sandes + bebida). Vou buscar o saco dos 50 kms (o dos 87 trouxe logo a minha mulher na altura), e o prémio Finisher – Um lindo Blusão cinza com o nome da prova bordado a vermelho e o respectivo logotipo.

Para finalizar uma excelente sandes quente de presunto e uma cerveja que o estômago aceitou sem qualquer problema! De seguida de volta ao pavilhão para um banho quente e um sono reconfortante.

Fazendo o balanço da prova, destaco:
- Bons abastecimentos, bom saco de presença e bom prémio “finisher”
- Percurso técnico e duro q.b. mas de lindas paisagens
- A amabilidade de todos da organização, quer para com os atletas como para os acompanhantes.

Pontos a ter em consideração:
- A segurança do atleta! Não basta exigir telemóvel e apito quando não há rede na maior parte do percurso e locais de extrema perigosidade. Aconselhável a parte nocturna acompanhado.

 Em termos pessoais, retiro desta prova algumas lições:
- Muito importante ter bom equipamento para as condições climatéricas adversas.
- A resposta do corpo a duas noites sujeitas a privação de sono.
- Estou preparado mental e psicologicamente para enfrentar o UTMB.

Tenho a agradecer ao Alexandre Cunha o ter feito comigo o ultimo troço, numa altura em que bem precisava, e principalmente à minha tão querida e amada esposa pela grande "seca" que apanha no apoio quando faço estas "loucas" Ultra-maratonas.



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1º Ultra-Trail Sierras del Bandolero - 146 Km - Prado del Rey, Espanha

9 e 10 de Março de 2012 - 18h00

9 de Março 2012 

Desde o momento em que me propus a fazer a prova rainha do trail, o UTMB (Ultra-Trail du Mont-Blanc) na distância de 166 km, coloquei no meu calendário algumas provas como treino para esta grande prova.
Uma delas foi o Ultra Trail Sierras del Bandolero em Cadiz, Espanha - na distância de 146 km e com desnível positivo de 5.500 mt e um limite máximo de 40h.

Para quem já deveria estar habituado a fazer ultra-maratonas, esta prova surpreendeu-me pela sua dureza, temperaturas e alguns erros crassos (quase de principiante) da minha parte. Por essa razão lhes foi atribuído 4 pontos para o UTMB.
Mas comecemos por onde é suposto começar, pelo seu inicio:

Chegámos pelas 14h30 locais depois duma viagem de cerca de 550 km. A representação “Tuga” era composta pelo João Colaço, Paulo Costa, Alexandre Cunha, Nuno Silva, eu e a minha esposa. Levantámos os dorsais e recebemos um saco com um passaporte para a prova, uma T-Shirt técnica amarela, um Roadbook com todas as informações sobre a prova, um porta-chaves e alguns panfletos. Seguimos de imediato para o Pavilhão Desportivo onde deixámos os sacos-cama e preparámos o material para a prova.

Como a temperatura estava amena e quente, optei por levar uma camisola térmica, calções abaixo do joelho, meias de compressão e os novos Gel Trabuco 14 em que já tinha feito dois treinos com eles. Na mochila coloquei umas luvas, impermeável e o material obrigatório (manta térmica, frontal, pilhas, banda elástica, apito) além dos habituais gels, barras e frutos secos.

Preparei dois sacos, um para ser deixado em Ronda aos 60 km e outro para Villaluenga del Rosário aos 107 km. No primeiro coloquei uma T-Shirt de mangas compridas e uma muda de roupa seca no caso de eventualmente chover. No segundo coloquei os Gel Trabuco 13 com que já fiz várias ultras, roupa e calções mais frescos para o dia, cremes analgésicos, pensos e gels de reserva e magnésio.

Dado não ter qualquer referência desta prova, por ser a 1ª edição, mas pelo desnível e percurso, calculei que levaria cerca de 8 horas a chegar a Ronda (60 km) e de 15 a 16h até Villaluenga (107 km).

A partida foi dada ás 18h00 locais, após um pequeno “briefing”. À partida estavam cerca de 208 atletas.

Após uns dois km liderados por um Jeep da Guardia Civil até à saída da povoação, entrámos por trilhos de terra batida com destino a El Bosque (7,2 km). O ritmo ia agradável e em grupo. A certa altura deparo com o João, o Paulo e o Alexandre a vir dum trilho à esquerda. Tinham-se enganado! A sorte foi terem o track do percurso no Garmin. Eu também já o tinha activado. Preocupei-me por sentir a planta dos pés um pouco quentes mas pensei que era devido à recente descida pelo estradão.

 Após um km em estrada dentro da vila entrámos para um trilho de bosque com uma subida acentuada até aos 11 km. Um pouco depois as fitas mandavam-nos para uma descida à esquerda e ainda andei quase um km até que reparei que estava fora do percurso, comecei a recuar e defrontei-me com o grupo que provavelmente me seguiu. Alguém gritou que este era o percurso do regresso e lá regressámos todos ao ultimo cruzamento.  Após recuperado de novo o percurso continuámos a subir até descermos para um pequeno vale e iniciámos um trilho técnico acompanhado pela estrada à esquerda que iria até LLanos del Campo – 2º abastecimento – 14 km. Lembro-me de comentar com uma dupla de espanhóis com quem seguia que era mais fácil seguir pelo asfalto. Após o abastecimento a subida, sempre num piso pedregoso, iria até aos 20 km (Puerto del Boyar) – 1250 mt altitude. Os abastecimentos são bons, compostos por água, aquarius, sumo, coca-cola, laranjas, bananas e chocolate em pequenas barras.

Continuamos a subir, agora sem trilho definido e por cima de pedras pontiagudas (lapiás) pela Meseta del Simancon, ponto mais alto da prova (1500 mts). O ar é gélido, a temperatura desce rapidamente e sinto frio. Nem mesmo o impermeável e as luvas que tiro da mochila me aquecem. Até a bandeira me serve de lenço para cobrir a face. Atinjo os 28 km e deparo com luzes no fundo do vale. A descida é feita em diagonal ou em zigue-zague, com 35% de inclinação e demasiado perigosa. Faço-a quase sempre apoiado pela mão esquerda nas rochas e com os bastões na direita. O precipício é impressionante. Esta descida com cerca de 4 km vai demorar quase hora e meia. Á minha frente vislumbro de vez em quando uma luz dum frontal. Atrás de mim não vejo ninguém. Dois km depois já se vêem as casas de Villaluenga del Rosário. Ouvem-se vozes, gritos e badalos vindos de baixo. Provavelmente chegou mais um atleta! Eu continuo concentrado em cada passo que dou. Umas centenas de metros antes de chegar, aproxima-se uma luz em sentido contrário. É um fotógrafo que me anima e que diz que está quase. A chegada à vila é precedida duns gritos e badalos da população que me acolhe. Corro pelas ruas e entro dentro dum albergue onde está o abastecimento e verifico também que irei voltar aqui aos 107 km. Pelo relógio levo 6h36 de prova. Tenho o corpo frio, o nariz a pingar e os pés doridos de tanta pedra pontiaguda. Fazia falta uma bebida quente agora, mas não há. Dizem-me que a partir daqui o piso é melhor. Espero mais um pouco para ver se chega mais alguém que me possa fazer companhia, mas acabo por sair sozinho de novo.

Saio da povoação por um caminho de cimento que desce até um prado, e sobe de novo uns 5 km num trilho pedregoso mal marcado. Por diversas vezes tive de descer até à sinalização anterior para descobrir o trilho certo. Chegado ao topo olho para trás e vejo a descida perigosa para a vila repleta de pequenas luzes dos frontais dos demais atletas. A quantidade de luzes em zigue-zague mostram quanto longa é a descida. Sigo sempre pelo topo da serra sem ver vivalma. Desço ao vale e entro num estradão que me leva até ao abastecimento de LLanos del Libar, um pequeno refúgio na montanha. Aqui encontro um atleta pouco falador que acompanho até Puerto del Viento (47 km) e de novo até Montejaque (50 km).  Pouco lhe vejo a cara, pois está tapada com lenço e um buff.  A certa altura digo que tenho pedras no sapato e ele pergunta se quero parar. Acrescento que já vejo as luzes de Montejaque pelo que aguento até lá. No abastecimento aproveito para limpar as meias, ver como estão as bolhas e mudo as pilhas do frontal. Tento beber um café com leite mas é intragável. O meu companheiro acena-me que vai continuar, pelo lhe agradeço e digo-lhe para seguir.

Reconheço este lugar dos “101 km de Ronda”, só que agora vou no sentido contrário. Subo o zigue-zague em cimento até à Ermida e desço a famosa “subida ao Purgatório”. Na descida apanho dois atletas e sigo com eles até à linha de comboio. Deixo-os para trás até aparecerem três atletas de frontal em sentido contrário (um deles é uma mulher) que me dizem que já vão na volta e que devo subir sempre pela estrada até Ronda.

A meio da subida, cruzo-me com o João, o Paulo e o Alexandre que já vêm de volta de Ronda. Vou com cerca de 10 km de atraso em relação a eles. A subida para Ronda parece que nunca mais acaba. Finalmente chego a Ronda com 11h11’42” de prova – 60 km. Estou exausto! O Abastecimento é feito na rua onde estão os sacos que entregámos. Levanto o meu, retiro Magnésio e entrego-o de imediato para que seja enviado para a meta. Nada mais do que contem me irá ajudar até aos 107 km. Pergunto onde posso descansar e indicam-me o Pavilhão (onde dormi na prova de Ronda) depois das piscinas. Só que no pavilhão apenas estão abertos os vestiários para troca de roupa. Uma atleta espanhola refila por não haver um para senhoras e entra para uma das cabinas de duche. Procuro o ginásio mas lá não encontro nenhum sítio para descansar. Retiro os ténis e opto por me deitar nos assentos do anfiteatro com a mochila e os ténis a servirem de almofada. Acordo cerca duma 1h depois a tremer de frio. A condensação na roupa arrefeceu o meu corpo. Vou lavar os pés em água morna e verifico que a planta dos pés apresenta inícios de bolhas. Sigo rapidamente de novo para o abastecimento pois relembro de ver uma fogueira num bidão. Aqueço-me lá durante uns 15 minutos. Ligo á minha esposa e aproveito a saída de alguns espanhóis para seguir com eles. São 6h35 da manhã e já vou com mais de 12h de prova.

A descida de novo até Montejaque e o amanhecer vão-me aquecendo. Na via do comboio viro à esquerda para Benaojan, num longo estradão que acompanha a via-férrea. Rapidamente começo a suar. Nos vales a temperatura aquece enquanto nas montanhas desce rapidamente. Esta diferença contínua está a dar cabo de mim. E a dor nos pés especialmente a do pé esquerdo também não ajuda. Resolvo optar por caminhada rápida com o apoio dos bastões em vez do trote. O final do estradão dá origem a um trilho apertado que vai subindo progressivamente. A paisagem é bonita e aproveito para tirar umas fotos. Assim sou apanhado pelo grupo que me precedia que acabo por acompanhar até Benaojan (km 74). Aqui o abastecimento misturava-se com uma pequena feira de bancas que ainda estavam a montar.

A saída da vila é por uma descida até ao rio, seguindo depois por um trilho bastante arborizado tendo sempre o rio Guadiaro à direita e a via-férrea Sevilha-Cádiz. É um percurso muito bonito a meia-encosta numa distância de quase 10 km até ao abastecimento na Estação Jimera de Libar (km 84). Sou acompanhado por um atleta espanhol que fala um pouco Português, e que conhece o Moutinho. Este é bastante falador e vai servindo de cicerone. Após o abastecimento, cruzamos a e seguimos por um estradão junto ao rio que irá terminar para cruzarmos de novo a linha férrea. Nesta altura o atleta que acompanho fica para trás. Continuo a seguir até que entro num montado repleto de sobreiros. As dores nas plantas dos pés agudizam-se e paro para lavar os pés com água do camelbag e ligo o pé esquerdo com a única ligadura que trago. O atleta espanhol alcança-me e aguarda para que sigamos juntos.  Atrás de nós não se vê vivalma.

Após sairmos do montado, o percurso agora é feito na berma da linha férrea o que não é bom para os meus pés, pois o constante pisar das pedras é um martírio. Assim aguento durante cerca duns 3 km até atravessarmos de novo a linha e começarmos a subir por uma estrada até Cortes de La Frontera. Uma subida de quase 3 km até à vila onde está o abastecimento dos 95 km. Pelo menos neste local existem dois sofás onde me é possível descansar. Um deles já está ocupado com um atleta tapado com uma manta. O outro é o ideal para mim pois até se encontra perto dum aquecedor. Estou com 19h43’ de prova, pés inchados, com bolhas e mal aguento as pálpebras. A minha companhia segue o caminho e eu adormeço entre dois goles de isotónico ficando a dormir com o copo na mão. Mas pouco dá para descansar. Nem meia hora depois chega um mais um grupo que me acorda com o barulho. Aqui existe uma refeição (fria) de massas mas eu provo-a e está demasiado avinagrada o que quase me provoca o vómito.

O grupo prepara-se para sair e eu aproveito e vou com eles. Segundo a organização os próximos 12 km até Villaluenga del Rosário são “muy duros”, pois há que subir a Sierra Blanquilha. A subida inicia-se por um estradão que até gosto, mas rapidamente muda para trilhos de pura pedra onde o percurso se destaca pelas pedras com uma pequena cobertura de lama, sinal inequívoco dos atletas que as pisaram. O grupo separa-se tendo três atletas subido mais rapidamente e ficando eu de novo só entre eles e um casal que me precede. Pelas blasfémias que a “Chica” grita, reconheço-a dos vestiários de Ronda.

A subida é terrível. Demoro mais duma hora para a fazer e só percorri perto duns 3 km. No topo tenho de fazer uma pausa para descansar e tenho de vestir o impermeável para conseguir suportar o frio. Tiro mais umas fotos e continuo. O trilho pedregoso continua num sobe-e-desce contínuo pelo cume durante mais um par de km até que finalmente começo a descer. O trilho a descer é quase tão péssimo como o que fiz a subir. Finalmente atravesso um prado relvado enorme que termina noutra subida pedregosa.

Este trilho é-me conhecido pois é o mesmo de quando saí de Villaluenga, embora agora no sentido inverso. Demoro mais uma hora a fazer a descida. Atrás de mim ouço as vozes do casal que quase me apanha, enquanto que o trio á frente já fez o prado todo e começa a subida em cimento que nos leva á vila. Ligo á minha esposa que me aguarda na vila. Quase no topo já o casal me apanhou e quando começamos a descer apanhamos o trio e seguimos em grupo. A minha esposa chega ao pé de mim e juntos passo o grupo e encaminho-me para o abastecimento dos 107, embora o meu Garmin acuse 110 km. Chego com 24h02’12. Demorei cerca de 3h45 a concluir os últimos 12 km. Estou de rastos! A organização diz-me que os próximos 38 km são muito difíceis e que vão demorar de 6 a 8 horas. Eu quase que não consigo nem caminhar. Levanto o meu saco e não existe nem um sítio para descansar. Encontro de novo o atleta que fala português e que me anima e pergunta se quero ir com ele. Mas estou extenuado, cheio de sono, dorido e mal consigo ter-me em pé. Resolvo terminar a minha prova ali e informo o meu abandono. Só depois é que reparo que o outro atleta levou os meus bastões de carbono. Levo os dele e regresso de carro para a meta.

Ali informam-me que o ultimo atleta a chegar demorou 10 horas a cumprir os 38 km, o que de certeza que eu física e mentalmente não iria conseguir. Ainda só chegaram cerca de 20 atletas. Vou-me deitar. O João Colaço e o Nuno já lá estão. Chegaram em 4º e 15º lugar respectivamente. De manhã chega o Paulo e o Alexandre. Demoraram 13 horas a cumprir a última etapa perfazendo 30h46´de prova. O Alexandre desistiu nos últimos 3 km e teve de ser assistido pelos Bombeiros. Felizmente aceitaram que tivesse concluído e classificaram-no em 48º lugar. A classificação final contou com apenas 118 atletas em 208 à partida.

 Numa reflexão á minha prova, constato que cometi erros de principiante: utilizar ténis novos com apenas dois treinos feitos, muito sono devido a ter dormido pouco na última semana devido a viagens profissionais, e não ter um companheiro de prova em que nos pudéssemos ajudar mutuamente nos períodos de fadiga física e mental. O ser a 1ª edição também não abona, pois não tive qualquer conhecimento das dificuldades técnicas ou da dureza da prova.

Em resumo: estava mal preparado para completar esta prova e só consegui perfazer 110 km.

Que me sirva de experiência para o Ultra-trail du Mont Blanc.

 

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